Remédio de pressão brocha? Na maioria dos casos, não. Os remédios de pressão mais receitados no Brasil hoje, como losartana, enalapril e anlodipino, têm efeito neutro sobre a ereção nos estudos. A fama de “remédio que brocha” vem principalmente dos betabloqueadores mais antigos, como o atenolol e o propranolol, e um estudo com atenolol mostrou que o medo pode pesar mais que o próprio comprimido. Quem mais derruba a ereção é a pressão alta sem controle. E a regra de ouro: nunca pare o remédio por conta própria. Se a ereção mudou depois que você começou, converse com o médico, que costuma ter mais de uma opção.
Eu quase não tomei o meu. Aos 48, saí do consultório do clínico que o Dr. Fernando me mandou procurar com a receita de losartana na mão e a pressão em 16 por 10. No mesmo dia, um colega de estrada me disse no posto de gasolina, rindo: “remédio de pressão? Pode se despedir da patroa”. Eu já vinha falhando na cama. Passei uma semana com a caixa fechada na gaveta, achando que o remédio ia terminar de enterrar o que já estava ruim. Foi burrice, e é por isso que escrevo este artigo.
Índice
- Por que a pressão alta brocha o homem?
- Qual remédio de pressão brocha e qual não brocha?
- Atenolol brocha mesmo? O experimento que todo hipertenso devia conhecer
- Comecei o remédio de pressão e brochei: o que fazer?
- Tadalafila pode tomar com remédio de pressão?
- Quando procurar o médico
- Perguntas frequentes
Por que a pressão alta brocha o homem?
Pressão alta brocha, sim. A pressão alta, e não o remédio, é uma das causas mais comuns de disfunção erétil, o nome técnico pra dificuldade de ter ou manter a ereção. Ela castiga a parede das artérias do corpo inteiro, endurece e estreita os vasos e atrapalha o relaxamento que deixa o sangue entrar. As artérias do pênis são finas, então sentem primeiro.
Uma revisão publicada no Current Opinion in Cardiology coloca a hipertensão, a doença do coração, a insuficiência cardíaca e o diabetes entre as condições que andam juntas com a disfunção erétil. A mesma revisão, que tem um título bem pessimista (“tratamento anti-hipertensivo causa disfunção erétil”), aponta os diuréticos tiazídicos, a espironolactona e os betabloqueadores como os remédios que mais aparecem ligados à falha, e reconhece que só o fato de o paciente saber do efeito já aumenta o problema. Guarde essa última parte, ela vai voltar.
É a mesma história que eu conto desde o primeiro artigo deste site: a ereção é a luz do painel do coração. Ela costuma acender antes do motor dar problema. O mecanismo completo está no guia sobre ereção fraca depois dos 40.
Isso muda a pergunta. Muita gente começa o remédio de pressão já com a ereção ruim, porque a pressão estava alta havia anos sem ninguém medir. Aí a falha aparece na primeira semana de comprimido e o remédio leva a culpa por um estrago que veio antes dele. Foi o meu caso: cheguei ao consultório com 16 por 10 e já falhando na cama, antes de engolir o primeiro comprimido de losartana. Se foi a sua primeira falha e você está assustado, leia antes o que fazer depois de brochar.
Qual remédio de pressão brocha e qual não brocha?
Losartana, enalapril e anlodipino, remédios de pressão muito receitados no Brasil, têm efeito neutro sobre a ereção, segundo uma revisão de 2024 na revista Endocrine. Os betabloqueadores antigos, como atenolol e propranolol, e os de ação central, como clonidina e metildopa, são os mais ligados à disfunção erétil. O diurético tiazídico tem relato antigo de piora, sem confirmação nos estudos mais recentes.
A ciência aqui é mais tranquila do que o boato do posto de gasolina. Uma meta-análise de 2021 revisou 25 estudos (7.784 pacientes, a maioria com problema cardiovascular ou em risco), fez a conta com 16 deles e comparou as cinco grandes famílias de remédio de pressão. Não achou diferença significativa na ereção entre elas, nem entre elas e o placebo. Nem betabloqueador nem diurético, os dois com fama ruim, saíram piores que o placebo nessa conta. Os autores avisam que muitos estudos eram de qualidade fraca, então o assunto não está fechado.
A revisão de 2024 na revista Endocrine organiza melhor quem é quem, e é nela que eu me baseio pra tabela abaixo:
| Família do remédio | Exemplos comuns no Brasil | O que os estudos mostram sobre a ereção |
|---|---|---|
| BRA (bloqueadores do receptor da angiotensina) | losartana, valsartana, olmesartana | Neutro, talvez até positivo |
| IECA (inibidores da ECA) | enalapril, captopril | Neutro, talvez até positivo |
| Bloqueadores de canal de cálcio | anlodipino, nifedipino | Efeito neutro |
| Diuréticos tiazídicos | hidroclorotiazida, clortalidona | Relatos antigos de piora; evidência mais recente não confirma |
| Bloqueador de aldosterona | espironolactona | Aparece entre os mais ligados à disfunção erétil |
| Betabloqueadores | atenolol, propranolol, metoprolol | A família mais associada à disfunção erétil; o nebivolol tem resultado melhor |
| Ação central | clonidina, metildopa | Efeito negativo bem documentado, mas com poucos estudos controlados |
Leia essa tabela com uma ressalva importante: ela fala de média de estudo, não de você. Tem homem que toma atenolol a vida inteira sem problema nenhum, e tem homem que sente diferença com um remédio “neutro”. E cada remédio desses foi escolhido pelo seu médico por um motivo, às vezes um motivo do coração que vale mais que qualquer tabela.
Atenolol brocha mesmo? O experimento que todo hipertenso devia conhecer
O atenolol tem fama de brochar, mas boa parte da falha pode vir do medo. Num estudo italiano com 96 homens que tomaram atenolol por três meses, a disfunção erétil apareceu em 3,1% dos que não sabiam o que tomavam e em 31,2% dos que foram avisados do efeito na ereção. Mesmo comprimido.
Esse estudo mudou o jeito como eu enxergo o assunto. Os pesquisadores, num trabalho publicado no European Heart Journal em 2003, pegaram homens com doença cardiovascular recém-descoberta, idade média de 52 anos, todos com ereção normal. Todos tomaram atenolol, o betabloqueador com a pior fama. Só mudou o que cada grupo sabia:
- Quem não sabia qual remédio estava tomando: 3,1% passaram a ter disfunção erétil.
- Quem sabia o nome do remédio, mas não ouviu falar do efeito na ereção: 15,6%.
- Quem foi avisado de que o remédio podia afetar a ereção: 31,2%.
Dez vezes mais falha no grupo avisado. E tem mais: quando os que falharam receberam depois um comprimido de sildenafila e um de placebo, os dois funcionaram igual em quase todos. Ou seja, naquele estudo a falha era quase toda expectativa. Os grupos eram pequenos, 32 homens cada: 1 falhou no grupo que não sabia de nada, 10 no grupo avisado. Mas a direção é clara.
Isso não quer dizer que é tudo da sua cabeça. Quer dizer que a cabeça pesa muito, e que o “remédio que deixa broxa” dito no churrasco pode brochar mais que o próprio remédio. Se você se reconheceu nisso, o artigo sobre ansiedade de performance explica como esse ciclo do medo funciona e como sair dele.
Comecei o remédio de pressão e brochei: o que fazer?
Se a ereção mudou depois do remédio de pressão, não pare o comprimido por conta própria. Anote quando a mudança começou, repare se a ereção da manhã continua aparecendo e leve isso ao médico. Ele pode trocar a família do remédio, trocar o betabloqueador, ajustar o diurético ou tratar a ereção à parte.
Parar por conta é a pior escolha. Pressão alta não tem cura, mas tem tratamento e controle, e sem o comprimido o estrago nas artérias corre solto, inclusive nas do pênis. Você trocaria um problema que tem solução por um infarto. E o dinheiro não precisa ser desculpa: o SUS dá remédio de pressão de graça na Unidade Básica de Saúde e pela Farmácia Popular, com receita.
A ereção da manhã é uma pista boa. Se ela continua aparecendo, é sinal de que o encanamento funciona e a cabeça pode estar entrando no meio. Se sumiu, é dado relevante pra consulta, como eu expliquei no guia sobre ereção fraca. Leva isso e fala com todas as letras: “depois que comecei esse remédio, minha ereção mudou”.
O médico não vai rir. A revisão da Endocrine termina justamente dizendo que a função sexual deveria ser avaliada em todo hipertenso, no diagnóstico e depois de começar remédios que podem mexer com isso. Se o seu médico não perguntou, você pergunta.
Eu levei um mês pra ter essa conversa. No fim, a losartana ficou, a pressão baixou, os quilos foram saindo (a barriga derruba a testosterona, e isso eu só aprendi depois), e a ereção voltou junto. Não foi o remédio que me brochou. Foi a pressão que eu deixei sem cuidar por uns bons dez anos, regada a cerveja de fim de tarde, que também pesa na ereção.
Tadalafila pode tomar com remédio de pressão?
Muitos homens que tomam remédio de pressão usam tadalafila ou sildenafila, desde que o médico libere. A exceção absoluta é quem usa nitrato para angina, como a isossorbida: a combinação é proibida, porque a pressão pode cair de forma perigosa. Dose e liberação são sempre decisão de consultório.
A diretriz da Associação Médica Brasileira sobre disfunção erétil diz que usar esses remédios junto com anti-hipertensivos pode acentuar a queda de pressão, mas não proíbe a combinação. Um estudo citado nela mediu a diferença: a pressão máxima caiu 3,6 pontos com sildenafila mais remédio de pressão, contra 0,8 com placebo. Pouca coisa na média. O cuidado é maior com a doxazosina e outros alfabloqueadores, que muito homem de 50 toma pra pressão ou pra próstata.
Eu não vou te dizer dose aqui, e desconfie de quem diz. Se a sua dúvida agora é qual das duas tomar, comparei as duas num artigo à parte: sildenafila ou tadalafila, o que muda no tempo de ação de cada uma e o que pesa a mais pra quem é hipertenso.
Quando procurar o médico
Procure o seu médico, cardiologista ou clínico que cuida da sua pressão, se a ereção mudou depois de começar ou trocar um remédio. Não suspenda nada antes dessa consulta. Procure também um urologista se a dificuldade de ereção dura mais de algumas semanas, mesmo sem remédio novo: disfunção erétil pode ser sinal precoce de problema no coração ou de diabetes, e merece investigação. Quais exames entram nessa investigação, eu listei em check-up masculino.
Vá ao pronto-socorro se tiver dor ou aperto no peito, falta de ar, desmaio, ou dor de cabeça muito forte com a pressão muito alta. Se tomou remédio de ereção e sentiu tontura forte ou dor no peito, também é emergência, e ereção que dura mais de 4 horas também é pronto-socorro.
Perguntas frequentes
Losartana brocha?
Não, a losartana não faz brochar nos estudos. Ela é da família dos BRA, que tem efeito neutro sobre a ereção, talvez até positivo, segundo uma revisão de 2024. Se a ereção piorou depois que você começou a tomar, converse com o médico antes de parar, porque a causa pode ser a própria pressão.
Remédio de pressão alta causa impotência?
Na maioria dos casos, não. Losartana, enalapril e anlodipino têm efeito neutro sobre a ereção nos estudos. Os mais associados à disfunção erétil, nome técnico do que muita gente chama de impotência, são os betabloqueadores antigos, a espironolactona e remédios de ação central, como a clonidina. Na dúvida, fale com o médico.
Pressão alta causa impotência?
Causa, e é uma das causas mais comuns. A pressão alta castiga a parede das artérias do corpo inteiro, e as do pênis, por serem finas, sentem primeiro. Por isso a disfunção erétil anda junto com hipertensão, diabetes e doença do coração. Muitas vezes aparece antes de qualquer remédio.
Atenolol brocha?
O atenolol é um betabloqueador, a família mais associada à disfunção erétil. Mesmo assim, num estudo com 96 homens, a falha foi dez vezes maior em quem foi avisado do efeito colateral do que em quem não sabia o que tomava. Se incomodar, existem betabloqueadores com resultado melhor e outras famílias de remédio. A troca é decisão do médico.
Propranolol brocha?
O propranolol é um betabloqueador antigo, da mesma família do atenolol, a mais associada à disfunção erétil. Nem todo homem sente diferença. Se a ereção mudou depois dele, fale com o médico: existem betabloqueadores com resultado melhor e outras famílias de remédio de pressão.
Hidroclorotiazida brocha o homem?
A hidroclorotiazida é um diurético tiazídico, o remédio que faz urinar mais pra baixar a pressão. Relatos antigos associavam essa família à disfunção erétil, mas uma revisão de 2024 conclui que a evidência mais recente não confirma esse efeito. Se notar mudança, fale com o médico, que pode ajustar ou trocar.
Enalapril brocha?
Não é o esperado. O enalapril é um IECA (inibidor da ECA), a mesma família do captopril, e essa família tem efeito neutro sobre a ereção segundo uma revisão de 2024. Se a ereção mudou depois de começar, não pare por conta própria. Fale com o médico, porque a causa pode ser a própria pressão.
Anlodipino brocha?
Não é o esperado. O anlodipino é um bloqueador de canal de cálcio, a mesma família do nifedipino, e essa família tem efeito neutro sobre a ereção nos estudos. Se a ereção piorou depois que você começou, não suspenda o remédio. Leve a queixa ao médico, que investiga se a causa é outra.
Qual remédio de pressão não brocha?
Nenhum remédio é garantia pra todo mundo, mas BRA (losartana, valsartana), IECA (enalapril, captopril) e bloqueadores de canal de cálcio (anlodipino) têm efeito neutro nos estudos. Quem escolhe o remédio é o médico, levando em conta o seu coração, os seus rins e as outras doenças que você tiver.
Posso parar o remédio de pressão se estiver brochando?
Não. Parar por conta própria deixa a pressão subir de novo, e a pressão alta sem controle é uma das principais causas de disfunção erétil. Fale com o médico, que pode trocar ou ajustar o remédio.
Posso tomar tadalafila junto com losartana ou outro remédio de pressão?
Muitos hipertensos tomam, com liberação médica. Segundo a diretriz da Associação Médica Brasileira, a combinação pode acentuar a queda de pressão, mas não é proibida. A exceção absoluta é quem usa nitrato para angina, como a isossorbida. Dose e liberação são decisão de consultório.
Se você está com a caixa fechada na gaveta, igual eu fiquei, abre e toma. E marca a consulta pra falar da ereção junto. É uma conversa de dez minutos que pode salvar as duas coisas: o seu coração e a sua vida na cama.
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Nunca interrompa, troque ou ajuste remédio de pressão sem orientação do médico que acompanha você.
